• The Brazilian Critic

“Assédio” é a produção brasileira mais relevante em anos

Atualizado: 17 de Jul de 2020


No último dia 21/09 estreou na plataforma Globoplay, exclusivamente para assinantes, a minissérie “Assédio“, uma coprodução da TV Globo e O2 Filmes. Escrita por Maria Camargo, com roteiro livremente inspirado no livro “A Clínica: A Farsa e os Crimes de Roger Abdelmassih” de Vicente Vilardaga, e com direção-geral de Joana Jabace e artística de Amora Mautner, a série de 10 episódios retrata a ascensão e queda de um badalado médico especialista em fertilização acusado de abusar sexualmente de suas pacientes e o sofrimento e a busca dessas mulheres por justiça.


A série começa acertando no ponto mais crucial de uma produção: o roteiro. Por ter um material previamente publicado como embasamento para o texto, a chance de se prender ao realismo dos fatos ocorridos podia ser grande. Mas a excelente escolha de ficcionalizar, alterando locais e nomes dos personagens reais, dá à trama a liberdade de modelar a estória, tornando o enredo muito mais atrativo do que se fosse simplesmente uma produção “baseada em fatos reais”.


Mascarar pessoas e situações para poupar os reais envolvidos beneficia não somente os mesmos, mas principalmente a própria produção, tal como ocorreu, por exemplo, com o longa “Bingo: O Rei das Manhãs” (2017), de Daniel Rezende. O roteiro faz as devidas ligações entre os personagens inicialmente desconexos e cria uma atmosfera de suspense e mistério que permanece até o final da trama.

A direção também é muito feliz nas suas escolhas, principalmente pelo fato de ser encabeçada por uma mulher. A temática pesada e desconfortável talvez não ganharia a mesma atmosfera gerada por Mautner e equipe se fosse dirigida por um homem. As cenas de abuso e estupro facilmente poderiam ser confundidas como cenas eróticas e serem sexualizadas, o que não ocorre.


A visão feminina dos fatos grotescos ocorridos é perfeitamente transmitida para a tela, fazendo com que o espectador sinta a mesma repulsa que as personagens sentiram. O uso de desfoques, uma hora utilizado somente ao fundo, outrora a imagem inteira; a câmera observando de longe, como se fosse um predador; a mistura de pseudodocumentário retratando os depoimentos. Todas as escolhas funcionam.


A parte técnica também é positiva. A fotografia de Marcello Trotta é propositalmente desconfortável e claustrofóbica. A montagem intercala bem o real e o documental, oscilando na linha-temporal progressiva criada para cada personagem. A trilha sonora original de Eduardo Queiroz é inquietante, criando a atmosfera de cada situação sem roubar a cena.


O elenco talvez é um dos melhores já escalados para produções da Globo, não pelo seu estrelismo, mas sim pela dedicação dos atores. É claro que o roteiro e a direção facilitaram, dando a chance para cada ator brilhar no seu respectivo momento, mas isso jamais ocorreria não fosse a imersão dos artistas nas personagens.


Antonio Calloni é detestável, no melhor dos sentidos. Seu Dr. Roger Sadalla é grotesco, nojento, dissimulado. Sua psicopatia é mostrada em camadas, desde o tratamento com os netos até chegar violentamente às suas vítimas. O olhar de Calloni dá medo e repulso.  É o ator perfeito para o personagem.

Mas é o elenco feminino que brilha. Adriana Esteves, talvez uma das melhores atrizes da atualidade, está extraordinária novamente. Sua personagem vai do céu ao inferno e o espectador sente cada momento. O olhar de Adriana é a visualização da depressão, da perda dos sonhos.


Mariana Lima talvez esteja ainda melhor como a esposa de Sadalla. Sua personagem tem que lidar com o drama de um casamento falido e a decadência de um status social construído em cima dos abusos sexuais do marido. Ela imprime uma dor interna na personagem que consegue ser ainda maior do que a externa.


Elisa Volpatto também é uma grata surpresa, como uma jornalista que arrisca tudo pela verdade. As histórias se conectam a partir dela. Jéssica Ellen, Hermila Guedes, Paula Possani, Silvia Lourenço, Bianca Müller, Denise Weinberg, Felipe Camargo, João Miguel, Pedro Nercessian, Leonardo Netto — todos têm seu momento de brilho. Além de ótimas participações de Mônica Iozzi, Bárbara Paz e Léa Garcia.


Assédio” é uma minissérie que não deveria existir porque os acontecimentos horrendos e repulsivos retratados também não deveriam existir. Mas existem. E a excelência da produção faz jus à todas as pessoas que sofreram e ainda sofrem nas garras de inúmeros Sadallas e Adbelmassihs.


É uma produção que deve ser vista e divulgada, não somente pela qualidade artística, mas, sobretudo, porque não se deve negar o que aconteceu e nem esquecer aqueles que sofreram.

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