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Com visual intrigante, “Boca a Boca” aumenta o nível das produções brasileiras da Netflix


Lançada ontem, sexta-feira (17/07), “Boca a Boca” é a mais nova produção brasileira da Netflix. Idealizada pelo cineasta Esmir Filho, diretor e roteirista do premiado “Os Famosos e os Duendes da Morte” (2009), a série tem co-produção da Gullane e da Fetiche.

A trama não poderia ser mais atual: uma cidadezinha do interior é ameaçada por uma doença misteriosa transmitida pelo beijo. Mas não é somente a pandemia de COVID-19 que se assemelha à história. O conservadorismo e a hipocrisia vivenciados pela atual realidade brasileira e mundial também são retratados de maneia alegórica na série, já que, à medida que a doença se espalha, as várias camadas escondidas dos personagens vão sendo expostas.

O episódio-piloto começa com flashbacks de uma festa de música eletrônica, regada a substâncias ilícitas e muita libido adolescente. Logo em seguida, uma jovem aparece desolada e com uma mancha na boca. E com uma simples introdução, toda a premissa da série é revelada sem exposições desnecessárias, prendendo o espectador. E, apesar da ambientação adolescente presente por conta dos protagonistas jovens e do uso de gírias e mídias sociais ao longo dos episódios, os mistérios que englobam a cidade, a Escola Modelo que os personagens frequentam, e a doença recém-descoberta são suficientes para tirar a série da zona de conforto que um seriado teen provavelmente seguiria.



Temas como o universo LGBTQI+, religião, preconceito de classes, dentre outros, são lançados de maneira natural ao longo do seriado. Tais sacadas do roteiro tornam a série extremamente atrativa, contemplando o espectador com personagens interessantes e uma trama progressiva e consistente. Méritos da equipe de roteiristas, formada por Jaqueline Souza, Thais Guisasola, Marcelo Marchi, Juliana Rojas e pelo próprio Esmir, que também assina a direção do seriado junto com Rojas.

Direção, aliás, que também merece todos os créditos. Esmir Filho e Juliana Rojas tomam suas experiências anteriores no cinema e às adicionam em “Boca a Boca”. Desde o cultuado filme de Esmir citado no começo até seu curta-metragem “Saliva” (2007); além das inspirações de Rojas em suas produções, como os excelentes “As Boas Maneiras” (2017) e “Trabalhar Cansa” (2011). Tudo é aproveitado da melhor maneira.

O roteiro inspirado e a direção experimental se somam à uma montagem assertiva, uma trilha sonora ritmada e uma fotografia deslumbrante. Aliás, o diretor de fotografia Azul Serra deixa aqui seu melhor trabalho até o momento, não somente com a câmera, mas também com a iluminação e com a paleta de cores, resultando em uma experiência digna de reconhecimentos.


Com relação aos personagens, o trio de protagonistas foi muito bem escalado. Alex, Fran e Chico, vividos respectivamente por Caio Horowicz, Iza Moreira e Michel Joelsas, são essenciais para o desenvolvimento da trama ao mostrar os diferentes aspectos dos jovens. E a boa interpretação dos atores se manifesta de maneira natural. Aliás, não somente dos protagonistas, mas de todo o elenco jovem do seriado.

Dentre os adultos, destaque para Denise Fraga, que interpreta a diretora da Escola Modelo e rouba a cena desde seus primeiros segundos na tela. Thomás Aquino, famoso pelo filme “Bacurau” (2019) também tem seus momentos de destaque, assim como Grace Passô, Bruno Garcia e Bianca Byington.

Boca a Boca” é uma metáfora bem construída da sociedade: recatada e tradicional na superfície, mas cheia de receios e segredos no seu âmago. E com um visual psicodélico e bucólico ao mesmo tempo e uma trama intrigante e consistente, o novo seriado original da Netflix com certeza merece sua atenção.

Apesar de tentar abordar muitas coisas em apenas seis episódios, a primeira temporada termina em aberto, possibilitando uma segunda leva de capítulos. E este com certeza é um projeto que merece uma continuação.