• The Brazilian Critic

“Espelho da Vida” continua sequência de novelas de qualidade no horário das 18h

Atualizado: 17 de Jul de 2020


Há pouco mais de dois anos a Globo iniciou uma série interessante de produções de alta qualidade na faixa das 18h, tanto no texto quanto no visual. Essa sucessão de ótimas novelas se iniciou com “Novo Mundo”, de Thereza Falcão e Alessandro Marson, em 2017, seguida das também excelentes “Tempo de Amar” e “Orgulho & Paixão”, sendo a última vencedora do prêmio The Brazilian Critic 2018 de “Melhor Novela”.


Cabia à escritora Elizabeth Jhin continuar essa sequência de sucessos. A autora, que já é reconhecida como uma das mais tradicionais do horário ‘das seis’, já entregou outros trabalhos aclamados, como “Além do Tempo” e “Escrito nas Estrelas“. E não por acaso, os três folhetins têm em comum o tema da espiritualidade. A reencarnação, para ser mais específico.


Diferente das novelas bíblicas da Record, que frequentemente adotam um tom doutrinador para prender o público, “Espelho da Vida” (assim como as novelas anteriores da autora) optou por uma abordagem mais simbólica do tema. Isso aproxima o espectador da história, agradando os adeptos de doutrinas espiritualistas e, no mínimo, chamando a atenção dos que não compreendem bem o assunto.


Começando com a simples premissa da realização de um filme em uma cidadezinha do interior mineiro, o texto avança para a relação entre os personagens da vida real e suas vidas passadas. E as várias camadas do enredo — quase um roteiro à la Christopher Nolan — iam se costurando a cada episódio.


globo-espelho-da-vida-irene-ravache-hildegard-0301_fixed_large


Nas novelas anteriores, Jhin já havia brincado com a cronologia dos protagonistas. Mas com “Espelho da Vida“, a autora ousou ao sincronizar diferentes linhas do tempo. Esse roteiro audaz poderia rapidamente ser mal interpretado (chegando até a causar estranheza por parte da audiência no começo da trama). Mas, ao não subestimar a inteligência dos espectadores, o que se viu foi um texto complexo e muito bem organizado — em conjunto com uma direção e uma edição de alto nível.


A narrativa de Cris Valência/Júlia Castelo e suas adversidades, no presente e no passado, prendeu o espectador, sendo que a história dificilmente caia na obviedade. E as tramas paralelas eram tão interessantes quanto a principal, salvo poucos momentos de distanciamento de alguns núcleos.


Visualmente, a novela também foi ousada. Figurinos e direção de arte em dobro — três vezes na verdade, se contarmos o processo de criação do filme de Alain — para poder retratar o passado e o presente, anexados à uma fotografia eficaz em simbolizar ambos períodos.


Porém, o ótimo texto de Jhin e sua equipe, a competência artística da produção, e a inteligência da direção em alternar os períodos com leveza não seriam eficientes se o elenco não respondesse à altura. E as performances foram tão inspiradoras e em sintonia com o trabalho que nos presentearam com momentos emocionantes.


cris-faz-movimentos-no-espelho-2-tv-globo


Vitória Strada é uma estrela em ascensão. Sua interpretação de duas personagens foi complexa assim como o texto, resultando em cenas emotivas, outras inquietantes, mas sempre com uma entrega impressionante. Lembrando que este é apenas o segundo papel da atriz, que já havia brilhado em “Tempo de Amar“.


O mesmo pode-se dizer de Alinne Moraes como a vilã Isabel (Dora no passado). A atriz já havia demonstrado carisma para papéis vilanescos em outros folhetins, mas aqui ela apresentou toda sua competência interpretativa.


Rafael Cardoso e João Vicente de Castro também estavam ótimos em cena. O primeiro, já acostumado com a dinâmica espiritual da autora, estava em perfeita sintonia com a trama. Já João Vicente, que iniciou a novela com alguns problemas de química com a protagonista, aos poucos foi se rendendo brilhantemente ao personagem.


O elenco como um todo estava em excelente forma. Irene Ravache, Reginaldo Faria, Júlia Lemmertz, Felipe Camargo, Ângelo Antônio, Suzana Faini, Patrycia Travassos, Ana Lúcia Torre, Luciana Paes, Débora Ozório, Andrea BacellarPatrick Sampaio são alguns dentre vários outros nomes que abrilhantaram a novela.


4x


Além de Ravache, que nos trouxe mais uma interpretação inspiradora, devemos destacar a participação sublime do veterano Emiliano Queiroz como André. Suas cenas eram de extrema competência, por mais simples que fossem, presenteando o espectador com um personagem belíssimo.


Escrita por Elizabeth Jhin, com colaboração de Duba Elia, Renata Jhin, Wagner de Assis e Maria Clara Mattos, e com direção de Luis Felipe Sá, Rafael Salgado e Tande Bressane, direção geral de Cláudio Boeckel e direção artística de Pedro Vasconcelos, “Espelho da Vida” foi uma novela extremamente prazerosa de se acompanhar, apesar de ter tido uma baixa audiência, menor do que suas antecessoras.


Com um roteiro complexo e inteligente, temática interessante, qualidade visual ímpar e um conjunto de interpretações memoráveis, “Espelho da Vida” premiou o publico do horário das 18h com mais uma trama de excelência, mesmo que a recepção possa não ter agradado à todos. Que “Órfãos da Terra” possa recuperar a audiência e manter a qualidade de produção da faixa ‘das seis’.