• The Brazilian Critic

Feminismo e música mostram o potencial da Netflix com a série “Coisa Mais Linda”

Atualizado: 17 de Jul de 2020


Bossa nova, empoderamento feminino e muito afinco visual! Estas são as promessas que a Netflix traz para seu espectador em sua mais nova produção brasileira: “Coisa Mais Linda“. Criada por Giuliano Cedroni e Heather Roth, a nova série do canal de streaming mostra ao público, em sete capítulos, os desafios e preconceitos vividos por um grupo de mulheres brasileiras no final dos anos 50 em um Rio de Janeiro musical onde ainda não havia espaço para personagens femininas.


A história inicia com a paulista Maria Luiza, personagem de Maria Casadevall, que, ao desembarcar no Rio de Janeiro, descobre que seu marido a enganou, deixando ela sem nenhuma economia e com um projeto de restaurante às teias.


Traída, sem dinheiro e com um filho em São Paulo, ela se vê desconsolada. Até que, à convite de uma amiga de infância, ela descobre inspiração em uma festa em alto-mar embalada pelo enigmático som da bossa nova. Assim, com a ajuda de suas novas amigas, Malu promete abrir um clube de música diferente de tudo que existe, provando para seu pai e para a sociedade que uma mulher pode ser independente.


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O roteiro é engenhoso e falho ao mesmo tempo. Com apenas sete episódios, a série passa a impressão que deveria ter pelo menos três a mais. O desenvolvimento das tramas é dinâmico, porém rápido demais: as personagens se perdoam na mesma agilidade em que brigam; em uma cena, estão no Rio de Janeiro, e na cena seguinte, em São Paulo. E essa pressa acaba interferindo negativamente na montagem da série.


Contudo, a história contagia, não somente pelo carisma das personagens mas, principalmente, pelo processo de ascensão das mesmas ao longo dos episódios. É agradável ver a relação das quatro amigas e as dificuldades de cada uma sendo superadas ao longo da temporada.


Visualmente a série é grandiosa. Com nítida impressão de querer buscar um público internacional, a Netflix se empenhou para trazer qualidade e beleza na sua nova produção. Com inspirações em outras produções do canal — como a espanhola “Las Chicas del Cable” — e também da concorrência — como a aclamada “The Marvelous Mrs. Maisel” do Prime Video — o resultado é um Rio de Janeiro de revista.


Mas, mesmo com o visual exagerado e estilizado, não há como negar a qualidade de produção. Figurinos coloridos, direção de arte extremamente bem finalizada, uma fotografia agradável e até os efeitos visuais externos bem produzidos tornam a série uma das coisas mais lindas (trocadilho meramente intencional) da temporada até o momento.


A trilha sonora é charmosa, com bastante influência do jazz e da bossa nova, trazendo canções originais, cantadas pelo elenco, que revivem a época de ouro do gênero homenageado. Entretanto, as músicas escolhidas para embalar determinadas cenas, mesmo nos créditos finais, destoam. A escolha de vozes contemporâneas foge da nostalgia: por que escolher tocar “O mundo é um moinho” ao som de Cazuza quando a cena seria muito mais interessante na voz original de Cartola?


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O elenco é um dos pontos altos da série. O ótimo casting proporcionou interpretações fortes que sobressaíram ao texto, que eventualmente era carregado de didatismo ou de diálogos não-orgânicos. O resultado são personagens fortes, que representam muitas vezes situações contemporâneas, apesar da trama se passar em 1959.


Mesmo com uma protagonista não muito crível, Maria Casadevall está leve como Malu. A atriz retorna com mais uma interpretação carismática depois de personagens com tramas carregadas, como em “Os Dias Eram Assim” e “Ilha de Ferro”, sendo que a última lhe rendeu uma indicação ao The Brazilian Critic de 2018.


Apesar do retrato estereotipado da classe baixa — com direito a uma cena de samba no morro bastante afetada — a trama da personagem Adélia tem bastante oportunidade de crescer nas próximas temporadas, sobretudo devido à ótima interpretação de Pathy DeJesus, também indicada ao The Brazilian Critic no ano passado pela série “Rua Augusta”.


Fernanda Vasconcellos está magnetizante como a sofrida Lígia. A atriz, que há tempos não recebe um papel de destaque nas produções onde é escalada, entrega uma performance palpável, de olhares e vozes. Mesmo com uma trama que se dissolve muito rápido, sua atuação deve ser destacada com positividade. Assim como a de Mel Lisboa, que faz a moderna Thereza. As camadas da personagem poderiam ser mais exploradas, sendo que no início ela se mostra uma mulher prafrentex e poliamorosa, mas finaliza a série com suas inclinações corrompidas. Sua relação com o marido também prometiam mais situações dramáticas. Mesmo assim, a atriz propõe uma interpretação leve e carismática.


Leandro Lima, Ícaro Silva, Alexandre Cioletti (outra feliz surpresa), Gustavo Vaz e Gustavo Machado completam o elenco, que conta com participações de Esther Góes, Thaila Ayala, João Bourbonnais, Ondina Clais Castillo, Larissa Nunes e Paulo Tiefenthaler.


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Infelizmente a série entrega pouco do que prometeu. O feminismo e o empoderamento feminino estão presentes, sim. Mas em forma de diálogos didáticos e com pouco efeito. Além disso, a bossa nova, que deveria ser um cartão de visitas para a trama, não aparece com a frequência esperada.


Coisa Mais Linda” é uma série que poderia ser classificada como ‘para inglês ver‘: com muito afinco visual, cenas de sexo moderadas, e muito cigarro e bebida à laMad Men. Mas ela peca em vários pontos no roteiro, principalmente nas transições e nos desfechos.


Entretanto, o elenco positivamente engajado ajuda o espectador a se interessar pelo que está vendo. E, apesar dos pontos negativos, se sai como uma aposta interessante da Netflix. Que a próxima temporada possa aprender com os erros da primeira.


Coisa Mais Linda” tem direção de Caito Ortiz, Hugo Prata e Julia Rezende e roteiros de Heather Roth, Patrícia Corso, Leonardo Moreira, Luna Grimberg e Giuliano Cedroni. A temporada completa está disponível para os assinantes Netflix.