• The Brazilian Critic

“Jesus”, “Jezabel” e o futuro das novelas da RecordTV

Atualizado: 17 de Jul de 2020


Essa semana foi cheia de chegadas e partidas para os telespectadores da RecordTV: primeiro com o último capítulo da novela “Jesus“, exibido na segunda-feira (22/04), e, no dia seguinte, com a estreia da produção “Jezabel“.


Foi uma excelente quinzena para a emissora em termos de audiência, sobretudo pelo timing da exibição de “Jesus“. Fazer com que os últimos momentos da vida do líder cristão fossem apresentados ao público justamente na Semana Santa foi bem pensado, além de preparar a audiência para a sua sucessora.


Entretanto, a trama sobre Jesus Cristo não obteve a atenção máxima que era esperada. E isso mostra bastante o quanto a forma de roteirizar suas produções mudou desde o princípio da dramaturgia gospel na emissora.


Sua primeira produção bíblica data de 2010, com a minissérie “A História de Ester“. Desde então, foram produzidas cinco minisséries — “Sansão e Dalila” (2011), “Rei Davi” (2012), “José do Egito” (2013), “Milagres de Jesus” (2014) e “Lia” (2018) —  e quatro novelas — “Os Dez Mandamentos” (2015), “A Terra Prometida” (2016), “O Rico e o Lázaro” (2017) e “Apocalipse” (2017). “Jesus” é a quinta produção inspirada na Bíblia Sagrada com mais de 50 capítulos.


76802-a-novela-os-dez-mandamentos-da-diapo-1


O formato de minissérie facilita a condensação da história, devido ao número menor de capítulos. Era a fórmula perfeita, há uma década atrás, para quem estava começando um gênero ainda inédito na televisão brasileira. E, com o resultado positivo, a RecordTV foi aumentando gradualmente o número de episódios: “A História de Ester” teve 10 capítulos e “José do Egito” teve 38, por exemplo. Com isso, o incentivo para migrar suas tramas bíblicas para o formato novelístico foi irrecusável. E assim o fez, de forma grandiosa.


Os Dez Mandamentos“, a primeira novela da RecordTV a retratar uma história baseada na Bíblia, teve incríveis 242 capítulos. Para se ter uma ideia, a média de capítulos das novelas do horário das 21h da TV Globo da última década não chega aos 180, sendo que a novela “Amor à Vida” foi a que teve o maior número, com 221 capítulos exibidos — 21 a mais do que a produção da concorrente.


Mas a trama pioneira escrita por Vivian de Oliveira e dirigida por Alexandre Avancini não teve somente grandiosidade no número de episódios. Visualmente a produção impressionou também, trazendo cenários nababescos, figurinos ostentosos e trilha sonora épica. Um tipo de produto extremamente diferente do que se costumava ver na emissora, que amargava na audiência quando o assunto era dramaturgia, mas que reviveu das cinzas com a então estreia do investimento evangélico.


Com uma audiência crescente e uma repercussão média por parte da crítica, o investimento nesse tipo de conteúdo cresceu. Tanto que, desde então, a principal faixa da RecordTV só exibe tramas com a temática religiosa.


satanas_apocalipse


Entretanto, a interferência evangélica no texto das produções foi aumentando gradativamente. Se no início, “A História de Ester” tinha o intuito simplório de mostrar a vida de uma personagem pouco divulgada da Bíblia, agora a emissora utiliza suas tramas para doutrinar a audiência, com direito à identificação das passagens representadas em cena.


Mas, mesmo as histórias fantásticas (ou fantasiosas, dependendo da visão do leitor) da Bíblia não são suficientes para preencher uma quantidade tão grande de capítulos com qualidade. “Apocalipse” (2017) tinha uma premissa complexa, que poderia ter rendido uma trama interessante. Mas o que se viu foi uma novela tediosa e, muitas vezes, ridicularizada pelo público.


O resultado: a pior audiência das novelas da RecordTV desde “Pecado Mortal” (2013), sendo que o último capítulo da novela ficou em terceiro lugar na televisão aberta, perdendo para a trama infantil “As Aventuras de Poliana” do SBT.


E mesmo o líder cristão não conseguiu o efeito dos sucessos antecessores. A história de Jesus já foi contada e recontada diversas vezes — poucas vezes na televisão e muitas vezes no cinema, é certo. Mas certamente a fórmula seria melhor aplicada em uma produção de menor porte. Preencher o espaço de uma novela de mais de 100 capítulos não é fácil quando o roteirista deve-se ater à um texto preexistente.


jesus-avisa-que-sera-morto


A dificuldade aumenta ainda mais quando o protagonista é uma figura tão onipresente e cultuada de diversas formas, como é o caso de “Jesus“. Desde o início a produção vem sofrendo críticas de outras religiões, sobretudo a católica, por causa da forma como o messias foi retratado.


Para tentar estabilizar a situação, tanto com relação à audiência quanto aos boicotes religiosos, a RecordTV retorna à fórmula que iniciou há uma década atrás: contar a história de uma personagem bíblica pouco conhecida e em um número menor de capítulos.


A nova produção da emissora, “Jezabel“, já começa com uma crise de identidade: foi anunciada como macrossérie, mas está creditada como novela. Mesmo assim, o texto de Cristianne Fridman (que tem previsão de 80 capítulos, podendo aumentar caso a recepção seja positiva) já inicia com uma missão: trazer de volta os bons tempos que Moisés um dia proporcionou.


Jezabel” estreou bem, com a direção de arte bem finalizada e a caracterização lindíssima. Mas a afinco visual já não prende mais o espectador, muito menos é suficiente para atrair novamente os desertores da audiência. Cabe aos personagens gerarem este efeito no público.


3004565-na-macrosserie-jezabel-jezabel-lidi-950x0-2


Para a primeira semana, o que se observou foi um trio principal muito bem escalado. Lidi Lisboa como Jezabel, André Bankoff como o Rei Acabe e Iano Salomão como o profeta Elias, todos os três com interpretações inspiradas. Além de algumas boas performances em papéis coadjuvantes, como Juliana Knust como Queila e Eduardo Lago como Phineas.


Mesmo com a fórmula antiga, “Jezabel” tem uma premissa diferente das demais novelas: a protagonista é uma vilã. Este fator, somado à uma atuação forte de Lidi Lisboa, podem alavancar uma renovação nas tramas da emissora. Religiões à parte, mas é notável que o público brasileiro se conecta muita mais ao folhetim quando este é contemplado por um vilão de qualidade.


Somado à representatividade de uma protagonista negra, infelizmente algo difícil de se ver no horário nobre brasileiro, “Jezabel” tem tudo para ser uma novela positivamente diferente. Basta o texto ter liberdade e se preocupar no desenvolvimento dos personagens, deixando a evangelização em segundo plano.


Com a previsão de estrear “Topíssima” em maio no horário das 19h45, a RecordTV clama por renovação. Seja na reformulação das suas novelas bíblicas, seja na produção de uma trama contemporânea.


E isso é benéfico não somente para a emissora do Bispo, mas, sobretudo, para estimular a concorrência saudável na televisão aberta. Oremos e aguardemos.


camila-rodrigues-4