• The Brazilian Critic

“O Sétimo Guardião” foi uma novela que se perdeu em suas próprias fantasias

Atualizado: 17 de Jul de 2020


O final de “Segundo Sol” deixou a desejar. Foi uma novela com altos e baixos que se manteve de pé graças à destreza do autor em criar personagens, sobretudo as vilãs de Adriana Esteves e Deborah Secco.


Com isso, criou-se uma esperança de que a fantasia proposta por Aguinaldo Silva para substituir a história de João Emanuel Carneiro trouxesse uma nostalgia já esquecida. Assim, o autor de bem sucedidos folhetins onde o chamado realismo fantástico reinava estava de volta. E teve seu caminho azeitado com a reprise de “A Indomada” no Canal Viva antes da estreia de sua nova trama.


O Sétimo Guardião” trouxe o espectador para cidadezinha de Serro Azul — local já citado em outros trabalhos anteriores do autor. Um município isolado, sem tecnologias e que guardava um segredo: uma fonte da juventude misteriosa, guardada por sete protetores que tinham a missão de mantê-la no anonimato.


A inconstância da sociedade secreta foi um fator que incomodou desde o começo. Como uma cidade do interior, aonde todos se conhecem, nunca se ateve às reuniões nada discretas do grupo? A ineficiência da missão dos guardiões também era colocada à prova frequentemente, já que a movimentação de forasteiros na dita “fonte secreta” era insistente.



Apesar de um roteiro mau amarrado, a trama ainda sofria com um problema que era fatal: a falta de carisma dos protagonistas. Mesmo com problemas, os folhetins anteriores apresentavam personagens centrais que contentavam o público — Clara (Bianca Bin) de “O Outro Lado do Paraíso” e Beto Falcão (Emilio Dantas) de “Segundo Sol” agradaram. Mas na trama de Aguinaldo, o casting falhou com seus mocinhos.


Marina Ruy Barbosa e Bruno Gagliasso não foram a melhor escolha. Suas atuações, somados à um roteiro problemático, não convenciam, resultando em mais uma heroína insossa e em um guardião detestável.


Mas nem os vilões agradaram. As supracitadas antagonistas de “Segundo Sol” e a ótima Sophia de Marieta Severo na trama anterior de Walcyr Carrasco tinham muito mais carisma do que os vilões de “O Sétimo Guardião“. Algo difícil de acontecer quando se escala Lília Cabral e Tony Ramos para os papéis — este último se destacando mais no final da trama, apesar de ter ficado subaproveitado durante boa parte da novela.


Outras atuações também contribuíram negativamente, como o bronco Nicolau de Marcelo Serrado e a caricata Laura de Yanna Lavigne, que teve sua performance comparada à do ator Ricardo Macchi, o Cigano Igor de “Explode Coração“.



Com isso, foram nas pequenas atuações que o público encontrou refúgio e ânimo para acompanhar o folhetim. Elizabeth Savalla entregou mais um grande papel com a beata Mirtes; Ana Beatriz Nogueira e Zezé Polessa também foram destaques como as guardiãs Ondina e Milu.


Dentre outros que apresentaram momentos interessantes, pode-se citar Vanessa Giácomo, Marcos Caruso, Aílton Graça, Leopoldo Pacheco, Carolina Dieckman, Nany People, Dan Stulbach e Letícia Spiller.


Mas o roteiro, ah, o roteiro…


A trama principal se desgastou com muita rapidez, forçando o autor a tomar atitudes que enfraqueceram a história, sobretudo na reta final, onde o ápice do folhetim deve acontecer. A série de assassinatos nas semanas decisivas foi uma jogada desesperada, tornando nítida a desorganização dos textos.


E mesmo as tramas paralelas não agradavam. O núcleo do delegado Machado (Milhem Cortaz) e sua obsessão por roupas íntimas femininas era desnecessário e os embates na família de Afrodite (Carolina Dieckman) cansaram.



Talvez a verdadeira fonte da ineficiência da história de “O Sétimo Guardião” foram os bastidores. A novela, mesmo antes de sua pré-produção, teve problemas: a confusão envolvendo a autoria da trama gerou indigestão para o autor e para a Globo, que teve que creditar os ex-alunos de Aguinaldo como colaboradores do roteiro.


Outro fato que incomodou envolveu o trio de atores principais da novela. Ruy Barbosa, Gagliasso, José Loreto e um suposto acontecimento em Fernando de Noronha indispôs o elenco e, certamente, interferiu no ambiente das gravações.


Mesmo com um elenco estelar, “O Sétimo Guardião” provou mais uma vez que uma novela não ganha o público com tanta facilidade. E deixou a reflexão de que, talvez, é melhor deixar os louros do passado no passado. Reviver um realismo fantástico talvez não seja o melhor atrativo para um folhetim atual.


Escrita por Aguinaldo Silva e Joana Jorge, com colaboração de Maurício Gyboski e Zé Dassilva, “O Sétimo Guardião” facilmente é um dos trabalhos menos interessantes do autor. Mas valeu a pena como experiência; não enfraquece o currículo dos roteiristas, tampouco do elenco. Mas, com certeza, não será uma trama lembrada com muita positividade.


O Sétimo Guardião” encerrou seus trabalhos na última sexta-feira. Mas sua trama já havia se perdido há bastante tempo.

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