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“Orgulho & Paixão” chega ao fim com o dever cumprido

Folhetim das 18h sai de cena com um desfecho bem amarrado e com um ótimo texto que, mesmo sendo de época, conseguiu explorar assuntos atuais de maneira leve.



Nesta segunda-feira (24/09) terminou a saga dos Benedito no Vale do Café do horário das seis horas da TV Globo. “Orgulho & Paixão” chega ao fim depois de mais de sete meses de produção e muitos elogios. A novela, escrita por Marcos Bernstein, livremente inspirada nas obras da escritora inglesa Jane Austen, e com direção artística de Fred Mayrink, sai de cena de forma positiva, trazendo frescor às tramas de época, geralmente arrastadas do horário, além de ter abordado temas importantes de forma lúcida e simples.


A produção sempre manteve o padrão impecável. Os figurinos de Beth Filipecki e Renaldo Machado foram um deleite para o espectador desde o início da trama, carregando as características de cada personagem consigo. Direção de arte e cenografia eficientes, uma fotografia que não abusa das técnicas, além de uma trilha sonora apropriada para a época. A direção foi operante, porque não foi exigida, deixando sempre o trabalho mais pesado com o roteiro e o elenco.

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Fonte: TV Globo

O roteiro, aliás, sempre pertinente, tratando os personagens como se fossem reais, dando a devida importância para cada um. É claro que, em novelas, o excesso de personagens acaba impedindo o desenvolvimento de alguns, mas não foi algo que comprometeu. O feminismo, mesmo que em tempos anteriores, sempre foi o foco da novela. Mas outros subtemas foram introduzidos de forma coerente ao longo da trama, como homossexualismo, abuso sexual, preconceito racial — sempre com a leveza que o horário exige, mas sem deixar de passar a mensagem. A importância desses temas serem abordados em uma faixa mais conservadora como a “das seis” de maneira satisfatória mostra a ousadia do autor.


Mesmo com vilões caricatos e mocinhos à moda antiga, o elenco foi extremamente feliz nas suas escolhas. Os destaques maiores ficam a cargo dos protagonistas Nathalia Dill e Thiago Lacerda, que, como Elisabeta e Darcy, mostraram todo o carisma e a qualidade de atuação necessários para fazerem um casal de folhetim de época ser querido pelo público.


Mas os personagens coadjuvantes também tiveram seu destaque. Gabriela Duarte como uma infeliz Juliana, em seu trabalho mais memorável em anos, foi um dos pontos altos da produção. Alessandra Negrini, Grace Gianoukas, Chandelly Braz, Agatha Moreira, Vera Holtz, Natália do Vale, Ary Fontoura, Pâmela Tomé, Tammy di Calafiori, Christine Fernandes, Laila Zaid, Marcelo Faria, Tato Gabus Mendes, Malvino Salvador, Juliano Laham; todos tiveram seu momento.

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Fonte: TV Globo

O último capítulo foi bem conduzido, sem apressar os desfechos de cada personagem. Isso ocorreu porque, desde o começo, a história já vinha sendo montada de forma organizada. O grand finale típico de novelas, com casamentos, bebês e vilões morrendo não pareceu piegas, pois, como toda a trama, o modernismo esteve presente, com direito a chuva de tinta e beijo gay.


Assim, o folhetim trouxe ao espectador fiel os ingredientes de um clássico “das seis”, mas, além disso, adicionou um frescor à trama e, com isso, atingiu um público mais jovem, não acostumado com o horário.


Orgulho & Paixão” termina de forma amarrada e é um exemplo de que a narrativa de uma novela de época não precisa ser antiga e demagoga, mas pode trabalhar temas atuais sem o didatismo comum, aumentando os padrões do horário para as próximas produções.