• The Brazilian Critic

“Se Eu Fechar os Olhos Agora” é uma fiel adaptação literária que merece ser vista

Atualizado: 17 de Jul de 2020


Está disponível desde agosto no serviço de vídeo sob demanda da Net e da Claro, o Now, e com possibilidade de estrear em breve na plataforma Globoplay a nova minissérie produzida pela TV Globo: “Se Eu Fechar os Olhos Agora“. Escrita por Ricardo Linhares, ela é uma adaptação do romance homônimo (vencedor do prêmio Jabuti em 2010) escrito pelo jornalista Edney Silvestre e tem direção geral de André Câmara e artística de Carlos Manga Jr.


A história começa em 1961, quando dois meninos de uma cidadezinha do interior fluminense, ao fugirem da escola para tomar banho de rio, acabam encontrando o corpo mutilado da jovem esposa do velho dentista da cidade. Apesar de o marido da vítima se entregar à polícia, alegando crime passional, vários acontecimentos na cidade e posteriores crimes acabam convencendo os dois garotos de que o assassinato ainda não está resolvido. E com a ajuda de um misterioso velho que vive no asilo da cidade, o trio decide investigar os crimes e acaba esbarrando em revelações do passado e segredos escondidos por personalidades importantes da cidade.


O roteiro é uma fiel adaptação literária, mantendo o tom misterioso e cadenciado da obra de Edney Silvestre. Além disso, outro acerto de Ricardo Linhares é a permanência dos diálogos da década de 60, mas de forma sutil, sem a utilização piegas que às vezes acomete às obras televisivas de época. A revelação dos personagens e dos fatos que vão dando liga à história de forma gradual, tudo sob o ar bucólico de uma cidadezinha interiorana, fazem com que o espectador tenha uma experiência imersiva, tal como quando se lê um livro.


se-eu-fechar-os-olhos-divulg.jpg


A direção presta um serviço ao texto, trabalhando em conjunto quando não há diálogos para explicar as cenas. Desde a câmera fechada que acompanha as rodas das bicicletas dos meninos pelas ruas até as tomadas mais abertas, mostrando cada canto da cidadezinha enquanto alguma trama se desenrola. É uma direção simples, porém assertiva.


As revelações dos fatos importantes para a trama sempre são acompanhadas de uma antecipação regrada, às vezes com flashbacks das personagens, e de uma montagem inteligente, contribuindo para a narrativa da série. Figurinos e direção de arte estão de acordo com o período de transição de antiguidade e tecnologia dos anos 50/60, sobretudo no interior do Brasil. E a trilha sonora original de Eduardo Queiroz dão um tom noir às cenas, embaladas por um jazz sutil, além de várias canções da época.


As personagens são dignas de um livro de Agatha Christie, cheias de segredos que são revelados gradualmente e com variadas camadas, dando ao espectador a ótima sensação de ir desvendando os mistérios junto com os protagonistas. Aliás, um raro trabalho de interpretação crível do elenco infantil: João Gabriel D’Aleluia e Xande Valois ganharam personagens difíceis de incorporar, mas que funcionam graças à naturalidade da dupla.


Antonio Fagundes como o velho Ubiratan traz leveza e experiência ao trio de investigadores. Mariana Ximenes está excelente como Adalgisa, um papel diferente dos outros que já fez na dramaturgia, com um traço cômico distinto e frases memoráveis muito bem-vindas à trama pesada. Débora Falabella também funciona muito bem como Isabel, uma personagem que vai se revelando ao longo da trama. Renato Borghi e Jonas Bloch como o dentista Francisco e o bispo Dom Tadeu trazem uma presença em cena indiscutível, contribuindo para o tom literário da história.


Paulo Rocha, Enzo Romani, Gabriel Falcão, Marcela Fetter, Júlia Svacinna, Pierre Baitelli, Eike Duarte, Vitor Thiré, Antônio Grassi completam o elenco, todos contribuindo para a trama de forma positiva. Com destaque para um irreconhecível Paulo Rocha, com o sotaque português totalmente ausente, e para Marcela Fetter, que interpreta a iludida Cecília. Participam também Murilo Benício e Gabriel Braga Nunes, que estão operantes, mas sem se distanciarem muito de suas atuações anteriores.


xmariana-ximenes-diz-que-sua-adalgisa-e-dona-de-humor-acido-pagespeed-ic-enwrekzwpb.jpg


A série ainda conta com participações especiais de Lidi Lisboa, Betty Faria (ambas muito bem em cena) e, principalmente, de Milton Gonçalves, que se faz presente somente com sua voz, e de Ruth de Souza, que encanta mesmo quando não fala nada.


Se Eu Fechar os Olhos Agora” é uma minissérie com uma base textual extremamente competente e um roteiro mais ainda. Direção e produção na mesma sintonia e atuações condizentes com as personagens tornam a obra intrigante e prendem o espectador.


A falta de boas adaptações literárias, que recriem a atmosfera da obra em que é baseada para a televisão, faz de “Se Eu Fechar os Olhos Agora” uma produção obrigatória para os que gostam de minisséries nacionais baseadas em livros. Que ela seja mais divulgada e possa ser exibida em rede nacional aberta.